quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Sobre a afetividade que termina

O encerramento da Fundação Cultural de Canela deixa uma região órfã de cultura e afetividade. Escrevi uma região? Desculpa: deixa o globo que gira órfão de cultura e afetividade. Por ali circularam artistas do mundo todo com os festivais de teatro e dos bonecos. Pessoas de muitas línguas, hábitos e costumes. Por aqui, brasileiros que viraram canelenses de coração e que naquela casinha se encontravam para respirar cultura e sonhar muitos sonhos juntos. O final de luzes de uma entidade cultural não é somente um negócio que termina, é um sonho que encerra. As cortinas do palco foram fechadas. O FIM se desenhou, de maneira abrupta, no meio do livro. O filme terminou por problemas técnicos. Um final chega e nunca estamos acostumados. Nunca queremos a finaleira dos aplausos e o apagar das luzes, por mais cansados que estejamos. Coração que para de bater, morre. Problemas jurídicos precisam de advogados. Problemas administrativos precisam de gestores. E vida criativa precisa de artistas. Um dia entenderemos que perdemos todos quando não unimos forças pelo presente e pelo futuro. Mais do que perder a casinha da cultura, o espaço Nydia Guimaraes, as festas dos bonecos e tantos outros eventos, perdemos a afetividade do reunir as pessoas. Pessoas vivem com afeto. Desconfie de quem dispensa um abraço. Até mesmo em tempo de pandemia nos abraçamos virtualmente. Gente é feita de sentimentos, de amor, de compaixão e de solidariedade. Perdemos povo feliz na rua. Perdemos universos tão diferentes interagindo. Perdemos vida em grande proporção. Este encerrar acaba com uma porção de ressignificados, que a cultura sempre nos proporcionou: transformar tristeza em desafio e superação. Eram sorrisos livres e expontâneos com bonecos, livros, cinema, escrita, música e pessoas. Perdemos afetividade em progressão geométrica, para quem prefere linguagem técnica. Perdemos vida que poderia gerar mais vida. Já sabemos que o mundo é povoado por burocratas, mas também sabemos que artistas e criativos possuem uma alta capacidade de resiliência e multiplicação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por que me tornei uma colagista

Em 2001 fiz um auto exílio na Suíça, em função de um casamento. Jornalista no Brasil, lá me descobri uma analfabeta. Além de precisar apre...